terça-feira, 30 de outubro de 2012

Amor aziago II

Quando Helena começou a ler o conteúdo do sobrescrito, sentiu um formigueiro a invadir-lhe as mãos. Os músculos contraíram-se num espasmo violento e caiu, de joelhos no chão, com a face ruborizada. O seu olhar paralisara naquela caligrafia firme e fina que tantas vezes lhe ditara palavras de amor. Naquele momento apenas se sentia inundada por ondas de mágoa que alagavam o seu interior. Era uma carta de Alexandre. Repetiu o olhar incrédulo naquelas linhas:

" Minha Helena,


Não te quero fazer sofrer... Não estou preparado para assumir tal responsabilidade... Não posso ser teu marido, nem tão pouco pai neste momento da minha vida...
Já te deves ter questionado acerca da minha família, pois nunca conheceste ninguém... Eles não te iriam aceitar por seres demasiado modesta e também por já seres mãe... e mais velha que eu.Têm uma mentalidade demasiadamente pequena para se preocuparem com o que me faz feliz. Se eu lhes contasse acerca do meu namoro contigo, nunca compreenderiam... Dependo deles para continuar a Faculdade. Se lhes contar a verdade, irei perder tudo... Tudo! 
Pensa no que fazer com esse bebé... pensa em nós. Dá-me mais algum tempo até concluir o curso. Aí poderemos ser felizes. 


Sempre teu,

Alexandre"

Uma a uma, lágrimas começaram a escorregar-lhe pela cara como se fosse orvalho matinal a balancear-se no verde das folhas. 
Uma semana antes, tinha-se sentido mal disposta e desmaiado numa das suas aulas. Foi vista pelo médico e, após alguns exames, concluiu-se estar grávida de seis semanas. 
Embora a notícia a tenha apanhado de surpresa, sentiu-se feliz. Amava Alexandre e estava convicta do sentimento que ele tinha por ela. Reuniu a coragem necessária para ter uma conversa séria com ele, mas a única resposta que obteve foi exatamente aquela que faria os seus ouvidos doerem. "Por favor... não pode ser... não agora... Dá-me tempo..."
Tais palavras ecoaram e ribombaram dentro dela como se de um trovão se tratasse. Desde esse dia aguardava uma resposta daquele homem que acreditava conhecer. Agora, sentia-se traída no fundo da sua alma. Como podia ter sido tão ingénua? 
Largas horas chorou. Longos dias pensou. 

(continua)

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Amor aziago


Helena continuava a olhar para o mar, enquanto o sol quente de Verão dava cor às suas faces e a brisa revolvia o cabelo escuro, como se lhe atormentasse o pensamento. Ao seu lado, Alexandre gaguejava, repetindo nervosamente, "por favor", numa voz sumida.
Tinham-se conhecido no início daquele ano, entre aulas e exames. Helena leccionava Linguística na faculdade quando, num daqueles dias de frenesim, reparou num jovem de tez morena e olhos brilhantes. Ao dirigir-se apressadamente para o seu gabinete com os exames daquele dia encostados ao peito, Alexandre vinha em cima da hora para o último exame daquele semestre. O choque foi inevitável. Gatafunhos coloridos voaram e, quase dançando no ar, foram pousando no chão, espalhando-se num leque aberto. Os olhos dele encontraram os de Helena com ar repreensivo.
- Peço desculpa. - A voz saiu-lhe clara, num timbre forte e agradável ao ouvido. Reuniu as folhas caídas, entregando-as rapidamente à jovem. Virou costas e, em passos apressados, entrou numa das salas.
Uma semana mais tarde, Helena estava a saborear o seu café matinal ainda atordoada pelo sono, quando reconheceu a voz que se lhe dirigiu:
- Posso ocupar este lugar?
- Está livre.
- Creio que, da última vez, não tive tempo para me desculpar convenientemente. O meu nome é Alexandre Oliveira.
- Helena Alves. Prazer.
E assim foram encetando conhecimento ao longo de semanas. Dia a dia, minuto a minuto, segundo a segundo, o conhecimento foi transformando-se e intensificando-se até que, quando se aperceberam da realidade, já se encontravam perto da ruptura de um sentimento que os dominara.
Helena, mulher guerreira, já apresentava uma história de vida algo difícil quando se deparou com Alexandre, cujo charme a arrebatara por completo. Órfã, criada pela irmã mais velha num catolicismo rigoroso, viu-se obrigada a frequentar um colégio de freiras de onde conseguiu escapar aos 18 anos. A muito custo e passando muitas vezes fome, conseguiu seguir os seus objectivos e terminar a licenciatura para, por fim, ter a independência e estabilidade tão fervorosamente desejadas. Nessa altura, teve o seu primeiro grande amor que a transformou num farrapo de pancada e a abandonou quando estava grávida do primeiro filho. Pouco a pouco, foi descobrindo e consciencializando-se que o seu filho era a sua vida. Tinha nascido para a solidão, para o amor à sua criança e à sua profissão.
Aos 34 anos, via-se agora apaixonada, mais uma vez. A vida pregara-lhe mais uma trapaça. Com o decorrer do tempo, envolveu-se com Alexandre, com quem partilhava fantasias, gostos e ambições. A pouco e pouco, esta presença foi também fazendo-se sentir na vida do seu pequeno, que necessitava de uma figura paternal.Durante um curto período sentiu-se completa. Aquele homem tratava-a com respeito, mostrava-lhe o valor que, até àquela data, ela nunca pensara ter. Oferecia-lhe o sonho nunca realizado. Quase como uma mosca apanhada pela teia da aranha, Helena viu-se presa ao poder de um sentimento infinito por um jovem de 27 anos.
Porém, a vida não é feita de sonhos cor de rosa, como se de algodão doce se trate. Todos os acontecimentos benéficos trazem uma cota de negatividade.
O palavreado gentil daquele homem que a enfeitiçara, cedo se desmistificou em palavras ásperas de ciúme e posse. Helena era uma mulher jovem, de uma beleza e simpatia atractivas, que acabou por se sentir enjaulada no seu próprio sentimento. Desta forma, mantinha-se submissa e, quantas vezes durante a noite, se interrogava sobre o porquê de nunca ter conhecido nenhum familiar do homem que entrara na sua vida. "Os meus pais moram longe", ouvia ela.
Certa manhã, ao sair de casa, vislumbrou um envelope sem remetente enfiado pela frincha da porta. Rápida e habilmente abriu o sobrescrito com curiosidade.
(continua)

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Ciclo vitalis


A esperança é uma pena que voa entre o arvoredo e que, por vezes, fica presa entre o verde das folhas. Que fazer para soltá-la? Que fazer para permitir que o seu voo continue e inunde aquelas almas que precisam de ter crença no desenrolar dos acontecimentos para ver que os sonhos também podem ser reais? Mas será a realidade uma mera ilusão? A ilusão será algum devaneio que nos leva a fugir à existência da verdade? A verdade, por sua vez, será um facto que pode ser comprovado fisicamente, em vez das costumeiras provas e argumentos? Os factos serão baseados em crenças?
Viver é demasiado complicado. Viver num mundo onde tudo é mesquinho. Onde todos se atropelam para chegar primeiro a cada meta, onde são capazes de até cortar a fita do final da meta com os próprios dentes para afirmarem a sua superioridade.
Não quero um mundo assim. Não quero ver tudo à minha volta desmoronar-se como castelos construídos na areia. Gostava de poder fazer como Pessoa e com cada pedra construir, um dia, um castelo. Em vez disso, surge a ideia esplêndida de atirar com todas essas pedras à água, vê-las afundarem-se e saber que não voltam mais.
Os castelos são feitos no ar e, mais dia, menos dia, vem uma nuvem carregada que desencadeia uma tempestade no copo de água que vamos ter que tomar, quando nos apercebermos que estamos aqui para viver e morrer.Sozinhos ou, os mais afortunados, acompanhados.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Horizonte


Sentado à beira-mar pensativo, saboreia a maresia como se se tratasse de um último beijo da vida. As ondas afagam-lhe os pés nus, enquanto o seu olhar é projectado para o horizonte, em busca de algum sinal do céu que indique uma orientação.As suas mãos grandes e fortes sentem, nos dedos, o areal fino que é apertado com vigor, quase desespero. A brisa ligeira revolve-lhe o cabelo suave que lhe esconde os vestígios de lágrimas na face.
Ao longe, escuta risos de crianças correndo no areal, brincando com castelos e cães que lhes estragam as obras de arte que tanto gosto lhes deram.Vê homens e mulheres já dominados pela paixão ou a tentar encetar uma conversa de uma tarde de Primavera, para conhecer alguém que procuram há tanto e encontrarem finalmente esse sentimento. Vazio, solidão... Tanto em redor e tão pouco no coração. Sentimentos ocultos, sentimentos perdidos na ilusão de querer viver um grande amor e desejar que seja eterno.
Questiona-se sobre a sua função na vida, sobre o facto de ter nascido, de viver... de sofrer. Porquê? Por que motivo as coisas têm de acontecer de determinada forma e não se consegue lidar ou viver mais com as mesmas no pensamento? A cada instante, a cada segundo, a cada minuto, a cada hora, a cada dia, a cada semana, a cada mês que passe... o pulsar de um coração agitado que não entra na conformidade. Que não encontra outro igual para poderem bater em conjunto, em simultâneo, em sintonia...Em vez disso, as cicatrizes alargam, retraem o coração, não deixando espaço para novas emoções, novas paixões, novos amores.... Mas novos amores? Não... Basta só um. Aquele que nos preencha.
Levantou-se de um salto e mergulhou no oceano.

domingo, 28 de março de 2010

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Eu e Tu


Eu tenho o som na mão,
Tu tens o silêncio...
Eu tenho a noite no espírito,
Tu tens a dor...
Eu tenho a cor nos lábios,
Tu tens a escuridão...
Eu e tu no infinito,
Continuamente perdidos,
Feridos,
Sós...
Eu tenho a aventura,
Tu tens a razão...
Eu tenho o calor,
Tu tens a paixão...
Eu e tu?
Nós?
Perdidos?...

domingo, 31 de janeiro de 2010


Leonor olha à sua volta e observa as pessoas em seu redor. Pela expressão carregada do chefe, entende a existência de algum contratempo laboral. Para variar, pensa ela. Dedica o seu tempo aos papéis em que se vê envolta todos os dias e respira fundo para manter a calma.O telefone toca desalmadamente sem parar... gente ignorante, gente sem educação que aprendeu que o português deve reclamar por qualquer motivo que seja, independentemente de estar correcto ou não. Tudo o que envolva questões monetárias faz crescer a irracionalidade no povo português, sendo que, alguns, quanto mais têm, mais querem ter e tirar a quem precisa. "A vida é feita de injustiças", relembra Leonor as palavras do seu avô.
O automatismo das colegas no local de trabalho lembra as máquinas das fábricas de produção em série em que, muitas vezes, a qualidade é posta de lado para que a quantidade exerça o seu poder. Falta marcar as miúdas daqui a ferro e fogo como fazem com o gado, pensa a miúda ruiva, enquanto esboça um sorriso. É a sua imaginação, que a leva para fora do local de todos os dias e que lhe confere um pouco de sanidade mental. Com esforço, tenta alegrar as colegas com as suas piadas e mostrar-lhes que a vida é feita de instantes. Embora existam dias em que é difícil acordar, abrir os olhos e encarar a chuva, o vento, o frio que nos enregela a alma, o sol que nos aquece o sangue, é necessário pensar que pelo menos existimos e que nada surge por acaso. Cada um de nós desempenha uma função importante na cadeia da existência humana do mundo.Todavia, raros são aqueles que deixam de respirar e conhecem a verdadeira razão de cá estarmos.