
Leonor olha à sua volta e observa as pessoas em seu redor. Pela expressão carregada do chefe, entende a existência de algum contratempo laboral. Para variar, pensa ela. Dedica o seu tempo aos papéis em que se vê envolta todos os dias e respira fundo para manter a calma.O telefone toca desalmadamente sem parar... gente ignorante, gente sem educação que aprendeu que o português deve reclamar por qualquer motivo que seja, independentemente de estar correcto ou não. Tudo o que envolva questões monetárias faz crescer a irracionalidade no povo português, sendo que, alguns, quanto mais têm, mais querem ter e tirar a quem precisa. "A vida é feita de injustiças", relembra Leonor as palavras do seu avô.
O automatismo das colegas no local de trabalho lembra as máquinas das fábricas de produção em série em que, muitas vezes, a qualidade é posta de lado para que a quantidade exerça o seu poder. Falta marcar as miúdas daqui a ferro e fogo como fazem com o gado, pensa a miúda ruiva, enquanto esboça um sorriso. É a sua imaginação, que a leva para fora do local de todos os dias e que lhe confere um pouco de sanidade mental. Com esforço, tenta alegrar as colegas com as suas piadas e mostrar-lhes que a vida é feita de instantes. Embora existam dias em que é difícil acordar, abrir os olhos e encarar a chuva, o vento, o frio que nos enregela a alma, o sol que nos aquece o sangue, é necessário pensar que pelo menos existimos e que nada surge por acaso. Cada um de nós desempenha uma função importante na cadeia da existência humana do mundo.Todavia, raros são aqueles que deixam de respirar e conhecem a verdadeira razão de cá estarmos.
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