
Caminhava na praia, observando as minhas pegadas. Sentindo a água fresca a acariciar-me a pele dourada. Quando a água recuava, na areia, deixava esqueletos desenhados que faziam o tempo voltar atrás.
Tempos de névoa, tempos de frieza gélida, tempos de chuva interior possessiva. Tempos também de alegria, de riso, de sol a invadir-me a alma, a iluminar-me.
Hoje, quando sinto a água gelada, sinto-a com as mãos. Refresco o meu rosto e corpo. Acordo. Vivo. Olho para o sol de frente e preparo-me para voar, tal como Ícaro, até lá. Mas serei mais simples, não perderei as asas, porque quem voa alto demais cai. Eu já caí.
Caí dentro de água suja que quase me asfixiou. A muito custo tentei manter-me à superfície. Alguém me deu a mão, salvou-me e ofereceu-me estas asas. Vou aproveitá-las e cuidá-las.
Agora caminho na praia, vejo as minhas pegadas. A água dá-me paz de espírito e renova a minha tranquilidade. Já não deixa esqueletos no areal, mas traços do futuro.
Olho para trás... que vejo eu?
Somente um vulto do passado esquecido.






