sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Amor aziago


Helena continuava a olhar para o mar, enquanto o sol quente de Verão dava cor às suas faces e a brisa revolvia o cabelo escuro, como se lhe atormentasse o pensamento. Ao seu lado, Alexandre gaguejava, repetindo nervosamente, "por favor", numa voz sumida.
Tinham-se conhecido no início daquele ano, entre aulas e exames. Helena leccionava Linguística na faculdade quando, num daqueles dias de frenesim, reparou num jovem de tez morena e olhos brilhantes. Ao dirigir-se apressadamente para o seu gabinete com os exames daquele dia encostados ao peito, Alexandre vinha em cima da hora para o último exame daquele semestre. O choque foi inevitável. Gatafunhos coloridos voaram e, quase dançando no ar, foram pousando no chão, espalhando-se num leque aberto. Os olhos dele encontraram os de Helena com ar repreensivo.
- Peço desculpa. - A voz saiu-lhe clara, num timbre forte e agradável ao ouvido. Reuniu as folhas caídas, entregando-as rapidamente à jovem. Virou costas e, em passos apressados, entrou numa das salas.
Uma semana mais tarde, Helena estava a saborear o seu café matinal ainda atordoada pelo sono, quando reconheceu a voz que se lhe dirigiu:
- Posso ocupar este lugar?
- Está livre.
- Creio que, da última vez, não tive tempo para me desculpar convenientemente. O meu nome é Alexandre Oliveira.
- Helena Alves. Prazer.
E assim foram encetando conhecimento ao longo de semanas. Dia a dia, minuto a minuto, segundo a segundo, o conhecimento foi transformando-se e intensificando-se até que, quando se aperceberam da realidade, já se encontravam perto da ruptura de um sentimento que os dominara.
Helena, mulher guerreira, já apresentava uma história de vida algo difícil quando se deparou com Alexandre, cujo charme a arrebatara por completo. Órfã, criada pela irmã mais velha num catolicismo rigoroso, viu-se obrigada a frequentar um colégio de freiras de onde conseguiu escapar aos 18 anos. A muito custo e passando muitas vezes fome, conseguiu seguir os seus objectivos e terminar a licenciatura para, por fim, ter a independência e estabilidade tão fervorosamente desejadas. Nessa altura, teve o seu primeiro grande amor que a transformou num farrapo de pancada e a abandonou quando estava grávida do primeiro filho. Pouco a pouco, foi descobrindo e consciencializando-se que o seu filho era a sua vida. Tinha nascido para a solidão, para o amor à sua criança e à sua profissão.
Aos 34 anos, via-se agora apaixonada, mais uma vez. A vida pregara-lhe mais uma trapaça. Com o decorrer do tempo, envolveu-se com Alexandre, com quem partilhava fantasias, gostos e ambições. A pouco e pouco, esta presença foi também fazendo-se sentir na vida do seu pequeno, que necessitava de uma figura paternal.Durante um curto período sentiu-se completa. Aquele homem tratava-a com respeito, mostrava-lhe o valor que, até àquela data, ela nunca pensara ter. Oferecia-lhe o sonho nunca realizado. Quase como uma mosca apanhada pela teia da aranha, Helena viu-se presa ao poder de um sentimento infinito por um jovem de 27 anos.
Porém, a vida não é feita de sonhos cor de rosa, como se de algodão doce se trate. Todos os acontecimentos benéficos trazem uma cota de negatividade.
O palavreado gentil daquele homem que a enfeitiçara, cedo se desmistificou em palavras ásperas de ciúme e posse. Helena era uma mulher jovem, de uma beleza e simpatia atractivas, que acabou por se sentir enjaulada no seu próprio sentimento. Desta forma, mantinha-se submissa e, quantas vezes durante a noite, se interrogava sobre o porquê de nunca ter conhecido nenhum familiar do homem que entrara na sua vida. "Os meus pais moram longe", ouvia ela.
Certa manhã, ao sair de casa, vislumbrou um envelope sem remetente enfiado pela frincha da porta. Rápida e habilmente abriu o sobrescrito com curiosidade.
(continua)

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