Quando Helena começou a ler o conteúdo do sobrescrito, sentiu um formigueiro a invadir-lhe as mãos. Os músculos contraíram-se num espasmo violento e caiu, de joelhos no chão, com a face ruborizada. O seu olhar paralisara naquela caligrafia firme e fina que tantas vezes lhe ditara palavras de amor. Naquele momento apenas se sentia inundada por ondas de mágoa que alagavam o seu interior. Era uma carta de Alexandre. Repetiu o olhar incrédulo naquelas linhas:
" Minha Helena,
Não te quero fazer sofrer... Não estou preparado para assumir tal responsabilidade... Não posso ser teu marido, nem tão pouco pai neste momento da minha vida...
Já te deves ter questionado acerca da minha família, pois nunca conheceste ninguém... Eles não te iriam aceitar por seres demasiado modesta e também por já seres mãe... e mais velha que eu.Têm uma mentalidade demasiadamente pequena para se preocuparem com o que me faz feliz. Se eu lhes contasse acerca do meu namoro contigo, nunca compreenderiam... Dependo deles para continuar a Faculdade. Se lhes contar a verdade, irei perder tudo... Tudo!
Pensa no que fazer com esse bebé... pensa em nós. Dá-me mais algum tempo até concluir o curso. Aí poderemos ser felizes.
Sempre teu,
Alexandre"
Uma a uma, lágrimas começaram a escorregar-lhe pela cara como se fosse orvalho matinal a balancear-se no verde das folhas.
Uma semana antes, tinha-se sentido mal disposta e desmaiado numa das suas aulas. Foi vista pelo médico e, após alguns exames, concluiu-se estar grávida de seis semanas.
Embora a notícia a tenha apanhado de surpresa, sentiu-se feliz. Amava Alexandre e estava convicta do sentimento que ele tinha por ela. Reuniu a coragem necessária para ter uma conversa séria com ele, mas a única resposta que obteve foi exatamente aquela que faria os seus ouvidos doerem. "Por favor... não pode ser... não agora... Dá-me tempo..."
Tais palavras ecoaram e ribombaram dentro dela como se de um trovão se tratasse. Desde esse dia aguardava uma resposta daquele homem que acreditava conhecer. Agora, sentia-se traída no fundo da sua alma. Como podia ter sido tão ingénua?
Largas horas chorou. Longos dias pensou.
(continua)

Sem comentários:
Enviar um comentário