
Suave e quente em simultâneo, o teu corpo perto do meu. O ondular enebriante dos lençóis provoca-me um sono contorcido, leve, irrequieto. Ouço o meu coração disparado, como um tiro no escuro, já perdido, distante. O Sono esvai-se. Escuto o silêncio. Silêncio irritante, enervante. Quero levantar-me. Não. Quero afinal descansar. Descansar num sono profundo, onde os sonhos tenham casa de nuvens e as emoções tenham aroma de gomas. Onde não seja necessário pensar. Onde não seja preciso sentir. Quero descansar numa cama feita de raios de lua, aquecida pelo sol. Pelos eternos amantes protegidos. Anseio pela tranquilidade crescida na água límpida e criada pela corrente do rio: enérgica, forte. Desejo a felicidade feita de paz, harmonia e sentimento.
Mas, meu Deus? Que digo eu?? Não existe nada. Os sonhos são sonhos, são a água que move o moinho. A força que move a vida e a transforma. Existe sentimento. Porém, serei eu capaz de o sentir? Serei eu pedra, faca, gume? Serei eu gelo que não dissolve com o calor? Que sou eu? Que criatura é esta? Capaz do gesto mais terno, mas também do mais pavoroso? Capaz de chorar por um animal ferido, mas imune ao sofrimento humano? Esse último olhar, essa transparência de um misto de raiva e revolta. Essa desilusão. As ilusões terminam. A vida é cruel.Todos ganham, mas também perdem. Faz-se e paga-se. Vive-se num mundo de injustiça. De desconfiança. De crueldade. Por favor, é urgente ensinar os homens de amanhã a viver. A cuidar da vida e adubá-la para dar frutos.
Sem comentários:
Enviar um comentário